Basta ligar a televisão, e lá está ela. Na revista semanal também. Até no sermão do padre, a crise aparece, com ares condenatórios sobre homes inescrupulosos. Essa semana tive a certeza de que não, não é só mais uma gripe, como foram os tigres asiáticos, como foi o 11 de setembro. Definitivamente, não é.
Recentemente li uma analogia interessante sobre nosso momento econômico desfavorável. Compararam a crise com o que aconteceu no final dos anos 40 em Monterrey, na Califórnia. Famosa por ser a capital mundial da sardinha, Monterrey recebeu enorme publicidade, e, por conseguinte, milhares de barcos pesqueiros exploradores do peixe bastante rentável. Resultado? Em pouco tempo, não havia mais peixes suficientes para tanta gente, pois a capacidade de reprodução da sardinha era muito menor do que a avidez dos pescadores. Monterrey quebrou e só se recuperou oitenta anos depois, com o turismo.
Comparando o que aconteceu com Monterrey com a nossa crise, basta trocar os pescadores por banqueiros, e a sardinhas por ações. Como era algo bastante rentável, choveu de ações no mercado mundial. A famosa seguradora AIG, detentora do triplo índice (AAA) de avaliação em seus papéis, usava seu renome para endossar papéis podres, de origem duvidosa. Com a sua “benção”, todos compravam os papéis por preço abaixo do mercado, porém endossados por uma empresa AAA. Os bancos europeus adoravam, e nessa crise, são os maiores prejudicados, junto com a Islândia, e é claro, os próprios EUA, maiores financiadores da compra de papéis podres que se tem história no mundo.
O resto da história acredito que todos conhecem. Como a AIG é a seguradora número um do mundo, dava seu aval também para financiar e cobrir hipotecas das casas americanas. O estouro imobiliário, as ações fraudulentas e os títulos sem valor foram decisivos para nossa atual conjuntura econômica. Com cada vez mais gente interessada em comprar ações (dinheiro) a preço de banana, logo os problemas dos ativos podres vieram à tona, e o dinheiro (a sardinha) escasseou. Engraçado como agora que percebemos que foi criado no coração financeiro dos Estados Unidos, Wall Street, uma engrenagem mais do que dinâmica para financiar o exagerado e exacerbado crescimento norte-americano, só que financiado por praticamente todos os habitantes (senão todos os bancos, detentores dos recursos dos habitantes) do mundo. Basta dizer que se todos os atuais seis bilhões e meio de habitantes tivessem o consumo dos 300 milhões de americanos, teríamos que ter cinco planetas terras em recursos naturais para poder suprir toda nossa demanda, no estilo americano de ser.
Não sei quanto a vocês, mas estou farto de bancar os erros dos americanos ao redor do mundo.Estou farto deste consumismo desenfreado, estou farto de ver tantas mortes por fontes de energia não-renováveis, cansado de ser alienado culturalmente por Hollywood, cansado de viver em um padrão de vida que me traduz pouco ou quase nada. Graças a Deus moramos no Brasil, e temos uma cultura forte, que embora parca em alguns aspectos, se sobrepõe fortemente com folclore e música de primeiro nível, contribuindo para um menor índice de “americanização”, do que o observado em outros países onde a música e o cinema americano praticamente dominam toda forma de cultura.
Temos que tirar lições do que nos acontece, e aprendermos a ser cada vez mais independentes do pseudo-império. Graças a um conjunto de ações e políticas econômicas, muita sorte e uma conjuntura econômica nacional aparentemente robusta, estamos passando por essa forte turbulência menos vulneráveis do que antes. Já começamos a sofrer com o desemprego, o crédito se encontra mais escasso, preços mais caros no supermercado.
Fico deprimido quando falam para os que querem montar empresa agora que o momento é difícil, de cautela, desmotivador mesmo. Não sei, mas pra mim, em momentos de crise é que nos sobressaímos melhor. Quem diria que depois da crise dos 30, os Estados Unidos pudessem crescer como cresceram? Quem iria adivinhar um plano Marshall, que terminou de alavancar os EUA como potência mundial frente à uma Europa devastada com a guerra? Quem iria adivinhar que o socialismo ia perecer, e que o capitalismo iria se apresentar doente, sem mais se auto-alimentar? Temos de pensar em um sistema novo, mais brando, com ênfase no coletivo, sem desprezar o capital, privilegiando o ser humano e seu meio-ambiente. Difícil? Claro. Impossível? Acredito que não, senão não teríamos tanta gente se esforçando para tanto. Será tarde demais? O tempo dirá.
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